Eduarda acabou de entrar
Mal a conhecia, tinham alguns amigos em comum e nem se lembrava desde
quando ela estava ali. Mais que matar trabalho, sentiu um interesse que o
surpreendeu, escorregou um oi.
A
resposta foi rápida, sentiu prazer na reciprocidade. Depois das
convenções de cumprimentos a conversa evoluiu
rapidamente. Discorreram sobre música, letras e afins, descobriram
diferenças e dentre as afinidades uma tara por conhaques.
Pairava sobre o papo um flerte oculto, nenhum dos dois queria ser o
primeiro a revelá-lo, porém, encontraram uma forma de manifestarem suas
intenções, logo estavam fantasiando um encontro casual que mais
escancarava do que velava os desejos:
- No apartamento dele.
- Sim, está frio e chovendo.
- Ela chega atrasada.
- Você chagaria atrasada?
- Chegaria um pouco, acho um charme. Tem que ter uma vitrola e lareira.
Continuaram o conto, cada um comandando seu avatar. Em determinada
altura, quando o casal já estava trocando carícias, ela interrompe:
- Preciso sair.
- Eu não tenho seu telefone.
Anotou o telefone, combinaram de conversar pessoalmente e ela saiu.
Antes mesmo de ele voltar ao trabalho ela reapareceu:
- Pode ser hoje?
- Pode sim.
- 19:30?
- 19:30 no Soberano.
- Fechado, até mais.
Ele levantou, foi até um amigo e pediu dinheiro, previa gastos que seu
bolso surrado não suportaria, o cúmplice patrocinou-lhe a noite.
O bar estava semi-vazio, apenas os fiéis etílicos ancorados no balcão
faziam número naquela terça de tempo fechado. Assim que entrou,
visualizou a mesa mais afastada, mal iluminada e perfeita. Sentou-se e
fumou, a seco, queria a companhia para começar a beber.
Ela chegou atrasada – achou-a previsível. E visivelmente desconsertada, não muito diferente dele, disse:
- O que vamos beber?
Parecia evidente, mas ele não queria parecer seguro demais.
- Conhaque né?
A primeira dose serviu para derrubar a diferença do computador e o
contato ao vivo, complementaram os assuntos tidos à tarde e iniciaram
outros. Ela falou sobre seu gosto vintage, de como era uma pinup perdida no futuro. Ele ouviu achando-a sofisticada.
O período da segunda dose foi dele, contou sobre uma nova descoberta
que tinha feito, um cantor fantástico, desfilou seu conhecimentos recém
adquiridos sobre o roqueiro e sentiu vergonha quando descobriu que ela
dominava aquela biografia muito mais que ele.
Com o tempo passando, o conhaque encarregou-se de dar maior dinâmica ao
encontro, entraram no assunto que ambos estavam interessados, por
iniciativa dela:
- Você já fez algo daquilo que conversamos hoje à tarde?
Ele riu contidamente.
- Sei que com certeza algumas coisas já, mas me refiro ao clima, à chuva, lareira, vitrola...
- Não, nunca.
- É, eu também só em fantasias...
Alcançada a fase do flerte aberto e descarado, entravam também na
quarta rodada de conhaque, ela nitidamente curvada na direção dele,
demonstrava a embriaguês a cada palavra que tropegamente pronunciava.
Ele dissimulado, arquitetava uma maneira que ao menos parecesse digna de
levá-la pra cama, falhou:
- Tem hora de ir pra casa?
- Talvez não, por quê?
- Podemos ir pra um hotel.
- Humm...
Pediram mais uma dose, a saideira. Ela ligou em casa, avisou que
dormiria na casa de uma amiga. Terminaram os copos e partiram.
Ventava forte, e a chuva espreitava. Na rua abraçados, foi que
perceberam o quanto estavam bêbados, ela mais, tinha dificuldade até com
as imperfeições da calçada. O hotel era próximo ao bar, mas o caminho
demorou, nem tanto pelos desvios do álcool, mas pelas bruscas paradas que
davam quando seus beijos coravam até as putas das três esquinas por quais
passaram.
Chegaram e o recepcionista
logo percebeu que, o casal embora estivesse viajando, não estava ali
para uma revigorante noite de sono, cobrou adiantado e disse um boa
noite malicioso, ela olhou pra baixo, pra ele o conhaque cobriu o
embaraço.
No quarto sem lareira nem vitrola, a despiu sem gentilezas e romantismos, ela não pareceu importar-se.
Choveu e amanheceu. A luz trouxe a ressaca, a sobriedade e certo
acanhamento, conversaram o necessário para ambos descobrirem que estavam
com fome. Desceram e no salão onde serviam o café comeram em silêncio
juntos à uma família, alguns empresários de notebook e um solitário
senhor.
Saíram do hotel juntos sob o guarda-chuva dela, três quadras depois:
- Vou por aqui ...
- Eu pra cá.
Um curto beijo.
Quando ele chegou ao trabalho ainda foi tomar mais um café, deu um tapa
nas costas do amigo parceiro e ligou o computador. Alguns minutos
depois lia um aviso na tela, Eduarda tinha acabado de entrar.
Kleber Bodinhão